ARTIGO – Privatização da água e salários de r$ 1 milhão por mês – por Rogério Ferraz

Sobre a venda da Corsan: “baita negócio. Mas não para quem paga a conta”

Afinal, Santa Maria ganha o que com esta privatização da Corsan? Fazer o usuário de Santa Maria pagar salário de R$ 1 milhão por mês a diretores da empresa privada é um dos “presentes” escondidos nesta negociação.

Já escrevi em outro artigo que o prefeito de Santa Maria, para justificar o agrado que fazia ao seu colega de partido Eduardo Leite, assinou o Termo Aditivo que permitia a privatização da Corsan e, segundo o prefeito, em decorrência desta privatização a cidade receberia “quase 1 bilhão em investimentos”. Ressaltei que isso é pura balela, um engodo para enganar incautos. Pois praticamente a totalidade desta verba já estava prevista no Contrato de Programa assinado por ele mesmo em 2018 com a Companhia pública Corsan.

De prático mesmo, temos que o prefeito abriu mão de uma universalização dos serviços na cidade em 2025 com a empresa pública para uma universalização somente em 2033 com a empresa privada.

Cito também o ato inominável (do ponto de vista administrativo) de abrir mão de R$ 200 milhões que caberia por contrato ao município em caso de privatização da estatal.

Outro fato é que a tarifa segue a mesma (sem redução), podendo subir além da inflação a partir de 2027, conforme consta no documento assinado pelo prefeito.

Já é realidade a suspensão da obra de duplicação da adutora de água bruta de Santa Maria orçada em R$ 55 milhões que estava licitada e homologada pela empresa pública Corsan. Denotando a real eficiência da empresa privada no saneamento. Só nessa tacada o prefeito jogou fora quantos empregos na cidade?

Salários de R$ 1 milhão por mês

A Corsan pública foi construída graças ao pagamento de tarifa de cada usuário. Muitos destes usuários fazem sacrifícios para manter a conta em dia e não ter a água cortada. Um grande número destes usuários recebe aproximadamente 1 salário mínimo por mês. Pois com a entrega deste serviço, sem licitação, à empresa Aegea e que o prefeito jura que é a única alternativa para a cidade, este trabalhador de salário mínimo teria que trabalhar o equivalente a 67 anos para alcançar o que diretores desta empresa Aegea faturam em apenas um mês. E este ganho é fruto do suor de quem paga a tarifa.

Em recente matéria veiculada no site do ONDAS – Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento – temos a notícia de que a própria Aegea publicou em seu Formulário de Referência de 2023 os ganhos de seus Diretores.

Apenas quatro destes diretores foram responsáveis pelo recebimento no ano de 2022 da fantástica cifra de R$ 51.075.223,87. Valor que, dividindo-se por 13 remunerações, chega à cifra mensal de R$ 982.215,84 para cada diretor.

Você pode pensar: “Ah, mas é uma empresa privada, portanto pode pagar quanto quiser para seus diretores”. Na questão do saneamento, a lógica dos salários é igual tanto para empresa privada quanto para pública. Ou seja, este ganho é fruto da tarifa que cada usuário paga.

O mesmo documento da Aegea mostra que a previsão para 2023 é que estas remunerações mensais passem a ser individualmente de R$ 1.159.471,28. Perfazendo um aumento de 18% em relação a 2022, enquanto o último reajuste do salário mínimo foi de 9%.

O lucro do serviço de saneamento feito pela Corsan pública é investido em solo gaúcho. Com a privatização este lucro vai numa proporção de 34% para Singapura que é o país de origem do Fundo Financeiro (GIC) que é um dos proprietários da Aegea.

Aliás, no site deste grupo financeiro tem uma frase muito interessante: “A luz orientadora do GIC: nosso compromisso inabalável com o povo de Singapura.”

Ou seja, trocamos uma empresa pública, que reinveste seu lucro para melhorar a vida do povo gaúcho por uma empresa privada que vai investir seu lucro para melhorar a vida do povo de Singapura. País que boa parte dos que pagarão a tarifa aqui nem sabe onde fica.

Outros 13% proporcionais do lucro com a tarifa que cada usuário pagará, terá como destino enriquecer ainda mais os donos do Grupo Itaú.

Em contrapartida aqui, nos municípios gaúchos onde a circulação de dinheiro é essencial para o comércio e prestação de serviço, por exemplo, estas empresas privadas pagam em torno de R$ 1.500,00 mensais para os Trabalhadores que fazem a água chegar às nossas torneiras e tratam o esgoto que produzimos.

Portanto, neste breve relato fica claro que a privatização da nossa água é um baita negócio. Mas não para quem paga a conta.

E o incrível é que o prefeito de Santa Maria deu este presente de grego ao nosso povo e não precisou se explicar com ninguém. Vereadores em silêncio (salvo pela heróica CPI que tenta trazer luz sobre este tema) e o povo que vai pagar tudo isso sequer sabe o que está acontecendo.

A Relatora do TCE já demonstrou as irregularidades do processo inclusive nos municípios e a nossa imprensa não tem o mínimo interesse de trazer isso para o debate.

E assim, tentam dar um ar de normalidade a uma situação totalmente irregular (segundo a Conselheira do TCE) e prejudicial ao nosso povo.

Ver matéria completa sobre os salários de magnatas pagos nestas empresas privadas de saneamento às custas dos usuários no link:

 https://ondasbrasil.org/executivos-de-valor-para-quem-nao-para-os-usuarios-de-agua-e-esgoto/

(*) Rogério Ferraz é Diretor de Divulgação do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgoto do Estado do Rio Grande do Sul – Sindiágua/RS.

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